Sobre Rosas, Leões e Cabras-Cegas.

O Festival Bonecos do Mundo, da Aliança Comunicação e Cultura, passa pela Ocupação Rosa Leão em Belo Horizonte.
Sobre Rosas, Leões e Cabras-Cegas.

Cabra-cega. Brincadeira inventada na China, 500 anos antes de Cristo. Jogo lúdico de topar na pessoa e tentar adivinhar quem é. Às cegas, os moradores da Ocupação Rosa Leão, de Belo Horizonte, costumam esbarrar entre si em noites sem Lua. Mas ainda estava claro quando aconteceu o inesperado. Contato com o desconhecido. “Quem é?”

O Festival Bonecos do Mundo, idealizado por nossa diretora de criação, junto com os Corsários Inversos, de Porto Alegre, inverteu a lógica. Invadiu a invasão. Erguidas sobre o terreno abandonado há décadas, casinhas singelas abrigam 1.500 famílias. Gente que se move mesmo sem direito a transporte. Gente limpa, no duplo sentido, mesmo sem direito a saneamento. Gente educada mesmo sem direito à escola pública. Lugar projetado com a ajuda de urbanistas ativistas. Defendido por 23 advogados voluntários. Cada nome de rua tem significado. Avenida Rosa Leão é em homenagem à líder comunitária, assassinada aos 40 anos, responsável pela legalização de uma ocupação histórica. Rua Leila Diniz representa as conquistas encabeçadas por mulheres. Rua Vitória celebra o enfrentamento das ameaças de despejo. Mesmo à margem da Prefeitura e do Governo, a comunidade permanece firme e sustentável. Respeita o meio ambiente e o ser humano. A coleta de lixo cumpre rigorosamente os dias combinados. A reciclagem e a reutilização das coisas garantem o milagre da multiplicação do necessário. O centro de atividades oferece cursos e oficinas e abre espaço para discussões. Tudo é decidido coletivamente. Exemplo de cidadania.

Enfeitada de fitas e lantejoulas, a Ocupação Rosa Leão abraçou nossos bonecos. Fita de festa e fio de marionete. Filete de lágrima. Diante de Charlene Cristiane. Líder, negra e linda. Viga-mestra da resistência. E não é que colocamos a moça para brincar? Capturada por nossos piratas, ela e mais 200 invasores, no melhor sentido da palavra, embarcaram no mistério da arte. “Nunca vivi nada assim, nem quando eu era criança”, disse Charlene. “Chique, muito chique, chique demais”, repetia o morador bailarino. Sem se dar conta de que era ele a figura mais elegante entre nós. No mesmo instante, a moça muito tímida ouvia, de olhos vendados, os segredos do berrante do artista. Minutos antes, o bêbado muito bêbado tentava fazer o papel de equilibrista enquanto o cão vira-lata roubava a cena e uma flor do cenário. Feito cabras-cegas, crianças se divertiam enlouquecidamente. “Adivinha quem é?” A própria infância.
Experiência inesquecível diante de uma gente que combina gentileza e coragem. Rosa e Leão. No final, nossos bravos Corsários recitaram o poeta: “Gente é pra brilhar. Esse é o meu lema e o do Sol”. Sim! Esse é o lema de Maiakovski, do Sol e de uma gente que se acende mesmo sem direito à luz elétrica.

Fotografia: Beto Figueiroa

Para saber mais sobre o projeto Bonecos do Mundo, acesse: Bonecos do Mundo

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