Bonecos do Mundo e as marionetes de todas as espécies

Quanto de corda é preciso para içar uma caravela? Mil e quinhentos metros do fio mais resistente? Os primeiros títeres que chegaram ao Brasil desembarcaram de nau portuguesa. Ancoraram em terras nordestinas. Para serem apresentados aos índios, que nunca cogitaram perguntar: com quantos paus se faz uma canoa? Para eles, o que sempre importou é o mistério que move. Então, o que acontece quando a corda de jangada é içada por mãos de marionetista? A embarcação vira boneco e pode nadar tranquila pelo mar do Ceará e da Paraíba. Bonecos do Mundo 2018. De volta aos dois estados, depois de velejar por todo o Brasil.

Feito arca de Noé reinventada, do Festival desembarcaram marionetes de todas as espécies. Em solos cearense e paraibano, durante quinze dias do mês de novembro. Verão na plenitude, sem risco de dilúvio. Em tardes de um azul-anil e noites de um azul-marinho, companhias de nove países e dez estados brasileiros apresentaram sua magnífica diversidade de técnicas e tecnologias. Reverenciaram o boneco popular brasileiro diante de mais de sessenta e cinco mil pessoas. Quem sabe inspirados pela coragem dos grandes navegadores do passado, títeres da Argentina, do Chile, da Rússia, dos Estados Unidos, da Itália, do Peru, da República Tcheca, da Espanha e, claro, do Brasil fincaram suas bandeiras e bandeirolas na terra firme da inclusão, no território da democratização do acesso à cultura. Nas ocupações dos patrimônios históricos e naturais. Espaços públicos repletos de público. Delirante aventura!

Como relíquias que emergem de antigos naufrágios, a Exposição Mamulengo: Patrimônio Imaterial Brasileiro trouxe à tona cerca de duzentas e cinquenta raridades. Coleção de Magda Modesto, em memória, enriquecida pelo acervo dos mestres mamulengueiros, em vida. Com direito à presença autêntica dos artesãos a talhar cabeças e cabeças de mulungu para multiplicar o pensamento. O sentimento? Ah… Na Praça dos Mamulengos, mais efervescente do que nunca, o Teatro de Bonecos Popular do Nordeste, tombado pelo Iphan, foi fervorosamente saudado. Seguindo a tradição, folgazões foliaram sem intervalo. Nem pensar em interromper a alegria. Na feirinha temática, a oportunidade de sair acompanhado pelo patrimônio. Recordação para salvaguardar na memória. Memória também fotográfica: registros dos nossos mestres mamulengueiros numa mostra acessível a toda gente.

Na barca dos sonhos, imensa nau-festival, as mãos dos marionetistas mais habilidosos moveram cordas e remos. Cordas que ergueram velas feitas do pano da chita. De seda, cetim, veludo. Ou do tecido mais branco, ao gosto dos jangadeiros, para servir de suporte a sombras seculares e projeções contemporâneas. Remos do tamanho de um palito de fósforo ou da mais comprida vara de pescar.

Figuras mitológicas de cinco metros de altura no cortejo performático, cenográfico e interativo do Giramundo com o Bonecos do Mundo. Para abrir as tardes do Festival, que já estava aberto. Teatros sem portas. A receber gente, gente, gente. Inclusive gente que enxerga diferente. Gente que escuta diferente. Audiodescrição e interpretação em libras. Libres! Liberdade e igualdade de ocupar o mesmo espaço diante da arte. E não pagar nada por isso. O coletivo podendo ser gigante e belo. Navio horizontal no horizonte.

Em duas semanas de descobrimentos, a epopeia marionética apresentou ao público mais de cento e cinquenta performances, intervenções e espetáculos nunca antes navegados. Enquanto isso, o que seria visto depois já começava a ser pensado. Cerca de cem profissionais do teatro participaram de quatro oficinas, ministradas por renomados artistas nacionais e internacionais. Geração de novas ideias para novas gerações. Marinheiros de primeira viagem a preparar seus barquinhos de papel.

Se não podemos responder com quantos paus se faz uma canoa, sabemos dizer com quantos quilos de sonho se levanta um Festival. Trezentas e dez toneladas de estrutura alavancadas por mãos de trabalhadores. Marionetistas das correntes e cordas de aço. Para ancorar as caravelas em caravana e deixar a excelência seguir a correnteza, quinhentos profissionais envolvidos. Seis carretas e três caminhões a percorrer 6.760 quilômetros. Ou por que não dizer: 1.350 léguas submarinas?

Do mar de velas do Mucuripe, emergiram milhares de criativas criaturas. Inundação de gente e de bonecos em Fortaleza. Tão fluidos que, por vezes, pareciam um só. No histórico Theatro José de Alencar, de contornos que remontam às caravelas do século 19, três sessões repletas. Plateia à deriva. Ao sopro das criações. Sopro, sopro, sopro. Na direção da cidade-patrimônio à beira-mar. “Eu amo Aquiraz”. Estava escrito na jangadinha. Em volta da igreja, centenas de estudantes avistaram o inusitado: a sereia ganhar vida. O velho Farol do Titanzinho, que há tempos não acendia, fez do sol o seu facho. Todo orgulhoso, iluminou os artistas. Salva-vidas daquela tarde dedicada a crianças em situação de risco. No sábado e domingo: Dragão do Mar de gente. Marinha sem comandantes. Portos sem Capitania. Ueba!!! Trinta mil cearenses em liberdade para experimentar as mais sutis e explícitas linguagens. Tripulantes periclitantes de si mesmos.

Com os porões e pulmões carregados de encanto, o projeto aportou na Paraíba. No Theatro Santa Roza, que também apresenta contornos de caravela antiga, do século 19. Quem chegou mais cedo escolheu a melhor poltrona. E por que não dizer cabine de navio? Seis sessões, ou melhor: seis marés cheias de paraibanos. De patrimônio em patrimônio, âncora em Areia. Que não tem mar, mas é cortada pelo rio. No sítio histórico, dentro do ainda mais ancião e não menos caravelístico Theatro Minerva, a deusa da poesia apreciou tudinho. Mar, rio, Lagoa… Parque da Lagoa.

Em torno dela, meninas e meninos de todas as idades perderam a noção do tempo. Oxigenados pelos quinze hectares de patrimônio natural. Naturalmente. Escafandristas de si mesmos. Capazes de chegar ao cantinho mais profundo. Resgate de identidade, susto bom de ser o que nem sabiam que eram. E continuar sendo depois, e depois, e depois. Como quem finalmente ocupa seu reino perdido. Atlântida!

De 2004 a 2018, em todas as edições do Bonecos do Mundo, a democratização do acesso à cultura, ao teatro de formas animadas, tem sido a quilha. Nau-festival que parte ao meio a modernidade líquida, valoriza o conhecimento sólido e ocupa os espaços públicos pelo público através da arte. Companhias de vinte países e de vinte e cinco estados brasileiros já navegaram pela costa oceânica e pelas veias fluviais de todas as capitais do Brasil. O lema: “Queremos você, seja você quem for”. E já são dois milhões trezentas e cinquenta mil pessoas. No mundo das marionetes, a maior plateia do planeta.

Se navegar é preciso, Fernando Pessoa, partir não deveria ser. Semelhantemente aos navegantes, ao final da missão as velas desceram. M a n s a m e n t e. Assim, continuam acesas. Delicado sinal de fumaça.

Idealização e curadoria do Bonecos do Mundo: Lina Rosa Vieira (nossa diretora de criação).

Fotografia: Beto Figueiroa

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