Luiz Gonzaga, o Doido do Baixio.

Baixio dos Doidos é um Projeto Especial da Aliança Comunicação e Cultura
Luiz Gonzaga, o Doido do Baixio

Baixio dos Doidos. Nome do lugar onde Luiz Gonzaga nasceu. Baixio dos Doidos pela sanfona. Baixio dos Baixos. Dos oito baixos, dos 120, dos 200 milhões de brasileiros. De todos os gonzaguiados do planeta. Guiados pela vontade de contrariar o estouro da boiada. De tomar a direção oposta e ser vaqueiro de si mesmo. Feito disse Henry Thoreau: “Quando um soldado marcha diferente, talvez esteja ouvindo um tambor diferente”. No caso de Gonzaga, o tambor era a zabumba.

Baixio dos Doidos. O marco zero de Luiz Gonzaga. De onde partiu a doidice moderna do Velho Lua. O Lua Nova. Do sertão que está em toda parte. Guimarães Rosa tinha razão. O sertão do Pajeú é o mesmo do deserto da Patagônia, do inverno de Moscou ou das periferias do Rio de Janeiro e de Nova York. A alegria e a tristeza que Gonzaga cantou são de todos. Pertencem ao russo da boate Cossacou e ao forrozeiro da Casa de Reboco. No baião de Luiz, estão a polca, o tango, o bolero e até as batidas do rock mais negro dos EUA.

A letra K nem fazia parte do alfabeto português e Luiz Gonzaga já escrevia Karolina assim. Letra e música conectadas com o mundo. Dos United States of Piauí aos Estados Unidos da América. Sotaque nordestino, linguagem universal. Alfabetizado de forma precária, Gonzaga aprendeu o pê-quê-rrê com as filhas do seu primeiro patrão. Mesmo assim, conseguiu fazer o País inteiro ler o seu ABC do Sertão. E se a sanfona parece com uma máquina de escrever, Luiz Gonzaga escreveu sua antologia poética. Compôs com Zé Dantas O Xote das Meninas. Com Onildo Almeida, A Feira de Caruaru. Com Nélson Barbalho, A Morte do Vaqueiro. Com Guio Moraes, Pau de Arara. Com João Silva, Danado de Bom. Com Humberto Teixeira, Asa Branca. Da cor da sanfona de Gonzaga. Das canções mais importantes da música popular brasileira. Parecida com as asas das aves polares que atravessam o planeta. Do ártico ao antártico. Parecida com uma revoada de arribaçãs. Tão grande que fez da Asa Branca a rainha do Rei do Baião. O verde dos olhos de Rosinha se espalhou em todas as plantações. Da caatinga ao cerrado. Da mata atlântica à floresta amazônica. Curioso é que, durante as primeiras gravações na RCA, a música foi criticada e comparada às ladainhas. O tal profeta chegou a afirmar que seria um fracasso. Mas não era ladainha, meu senhor. Era lamento. Uma tristeza tão íntegra que todo brasileiro sentiu junto. E como foi bonito ver, com os olhos verdes dos caboclos sertanejos, um baião virar um clássico. Não um clássico tocado por violinos ou celos. Um clássico tocado pela sanfona. Um instrumento tão popular, tão querido que tem muitos apelidos. Pé de Bode no Nordeste. Gaita de Duas Conversas no Sul. Cabeça de Égua em Minas Gerais. Testa de Ferro no Rio de Janeiro. Não importa o jeito que a gente chame, o fole é o pulmão do sanfoneiro. Que fôlego amazônico tinha o pulmão de Lua. No céu dos quatro cantos do mundo. Ou seria um balão de São João?

“Eu sou um simples cantor das coisas simples da minha terra.” Em sua simplicidade, Gonzaga não se deu conta de que a Terra era o planeta.
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Texto: Lina Rosa, idealizadora da exposição Baixio dos Doidos e nossa diretora de criação.

Fotografia: Helder Ferrer.

Para saber mais, acesse: Baixio dos Doidos.

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