Carta a Hermilo Borba Filho

Bonecos do Mundo no Parque 13 de Maio 2017

Enfim, inundado de poesia, o Parque Treze de Maio, em pleno coração do centro do Recife, tinha sido redescoberto. Um espaço de todos. Para todos. Do jeitinho que sonharas, caro professor. Parecia que aquelas coisas que tanto planejaste, ao fim da década de 1940, veio à tona como suspiro. Aliás, respiro. Sabe aquela energia que a arte traz e faz transformar mentes e corações? Pronto. Estávamos ali, 30 mil pessoas reunidas em dois dias mágicos. Mágicos e possíveis – apesar de sempre ter gente que ainda não acredita e acha que tudo não passou de sonho. Naqueles mesmos 6,9 hectares de área verde, vivenciamos o que tanto querias com o seu revolucionário Teatro do Estudante: a arte da representação em contato direto com o povo, de graça, em praça pública. “Sem levar em conta a noção de que o homem de pés descalços é indiferente à beleza e à sedução da palavra.”

Nossa, Hermilo, que sensação boa é realizar sonhos. Os seus, os nossos, dos mestres mamulengueiros, dos marionetistas contemporâneos e de todas aquelas pessoas que carecem de arte. Fazer o povo brincar no mesmo parque onde brincavas com Aloísio Magalhães em seus delirantes teatros de formas animadas. Anima. Alma. O Treze de Maio com a alma ancestral de Hermilo e Aloísio. Brincastes bonequeiros do passado, quem sabe, a mirar mestres e multidões feitos de uma só matéria: o mulungu. Nossos heróis e heroínas a dançar afoitos ao som de sanfona, rabeca, zabumba e triângulo. Fole, folia e foliões. Caro professor, ficarias orgulhoso em ver Tiridá, aquele presepeiro, manipulado com maestria por Fernando Augusto Gonçalves, como um grande anfitrião de tantas companhias, de várias partes do mundo. Boneco coreano, húngaro, italiano. Títere português, brasileiro, russo, peruano. Gigantescos seres aquáticos a fazer do céu o mar. E, do mar, oceano de gente. Multidão em nado livre. Sem medo de assim ser. Que ousadia a nossa fazer os artistas e bonecos do Plasticiens Volants se aventurarem nas águas mornas do Recife! Que ousadia a nossa fechar uma noite de domingo com o Mamulengo Só-Riso em toadas de maracatu e pastoril e paudório no lombório do politicamente correto. Mas é assim que devemos ser, não é mesmo? Ousados. Foi isso que nos ensinaste, caro Borba Filho: surpreender sempre a nós mesmos.

Idealização do Projeto Bonecos do Mundo: Lina Rosa Vieira, nossa Diretora de Criação.

Fotografias: Beto Figueiroa.

Para saber mais sobre as nossas ideias, acesse: http://aliancacom.com.br/ideias/

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